Você está sendo espionado diariamente na internet

Desde 2010 a Oi introduziu um programa que registra tudo o que o cliente de banda larga da empresa faz na internet. O programa, que se chama Webwise mas é conhecido como Phorm, é de uma empresa inglesa homônima que foi banida da Europa, a Phorm. Aqui, o programa foi batizado de Navegador Oi.

 

A Phorm foi banida da Europa depois que um de seus clientes, a British Telecom, ludibriou os seus consumidores. Quando o "programa espião" foi disponibilizado, a British Telecom disse que seria opcional. Mas todos os clientes usavam o programa sem saber. Quando descobriam e pediam para sair, a companhia supostamente removia o cliente da lista, mas na verdade o progama da Phorm continuava agindo e rastreando tudo o que o cliente fazia online.

 

Por conta desse episódio e de diversos outros questionamentos,  a tecnologia ficou mal vista ao redor do mundo. Desde 2002 quando foi criado pela Phorm, o programa tem gerado enorme controvérsia e despertado preocupações em grupos ligados à defesa dos direitos civis na internet. Toda essa resistência levou ao seu banimento na Europa e dificultou sua adoção nos Estados Unidos. O medo maior é de que as informações pessoais dos clientes sejam usadas de maneira indevida. Claro que por lei é proibido que uma empresa telefônica grampeie sua linha. Então, por que seu provedor de internet teria direito de acessar o que você faz online? Trata-se de um proigrama espião que ameaça a liberdade dos internautas.

Phorm no Velox

Ou seja, fica difícil acreditar que no caso da Oi será diferente. A empresa diz que aqui no Brasil o Navegador Oi também será opcional, mas a desconfiança é total. Segundo a empresa de telefonia o objetivo do Navegador é registrar as preferências de seus usuários enquanto usam a internet. Assim seria possível oferecer uma navegação mais personalizada. Por exemplo, o usuário que acessa muitas notícias de seu time passaria a ter automaticamente mais opções de informações sobre o time enquanto estivesse online.

Um porta-voz da Oi disse que “Uma página será apresentada aos clientes para que decidam se desejam ativar a ferramentai. A escolha e decisão é do cliente.”. A Oi e a Phorm também dizem que o programa é capaz de traçar o perfil dos usuários sem identificá-los. Assim que um cliente comça a navegar na web o Navegador Oi associa a ele um número aleatório. Então ao invés de usar os dados do cliente como nome, IP, matrícula, etc, é esse número interno que a Phorm usa em seus registros. “Nenhum dado pessoal, histórico de navegação ou endereço IP é armazenado pela ferramenta”, disse a Oi. “O sistema não rastreia e-mails, salas de bate-papo e páginas seguras, como sites de banco.”

Claro que outra utilidade do Phorm é exibir propagandas específicas para cada usuário, de acordo com os interesses registrados em suas navegações prévias. Isso facilitaria acordo com empresas para fecharem pacotes de anúncios com o Oi. Sites que também tenham acordo com o provedor poderiam vender anúncios com a promessa de que seriam veiculados a internautas cujo perfil fosse o que o anunciante deseja. Só que, além do Phorm ser invasivo, ele pode representar controle e maior concentração de poder nas mãos da Oi. Como provedora de internet, a empresa deveria prover acesso de maneira indistinta. Com o Phorm ela pode direcionar o conteúdo ou publicidade que trafega em sua rede. Eis um exemplo prático para ilustrar o problema: imagine uma empresa que fornece energia elétrica. Ela deve fornecer energia para todas as casas de sua rede, e para todos os equipamentos e eletrodomésticos que você ligasse na tomada. Mas imagine que ela pôde entrar na sua privacidade, ver suas preferências e vender as informações para uma marca de eletrodomésticos que tentaria te vender seus produtos. Cada vez que você ligasse seu novo eletrodoméstico na tomada, a empresa de eletricidade receberia dinheiro.

A empresa britância Phorm tem um histórico pra lá de duvidoso. Fundada em 2002 com o nome de 121Media, a empresa era especializada em criar programas para publicidade on-line. Porém o seu primeiro programa foi classificado como um spyware (programa espião que se instala na máquina do usuário sem consentimento, enviando suas informações de navegação a terceiros). Os spywares inundaram a internet na década passada e os usuários tinham grandes dificuldades para conseguir removê-los. A 121Media mudou seu nome para Phorm, mas isso não impediu a emprese de receber notificações de órgãos de segurança de países como Canadá, Estados Unidos e Inglaterra. Os pedidos eram os mesmos, que a Phorm interrompesse as vendas de seus spywares por ferir a segurança e a privacidade do internauta.

A Phorm então desenvolveu o Webwise, que segundo eles trataria o internauta de forma anônima. Porém, dado o histórico da Phorm, gigantes como Amazon, Wikipédia e Google bloquearam o Webwise em suas páginas por desconfiança. Personalidades influentes como Tim Berners-Lee, criador da web, criticaram a falta de transparência do Webwise. O caso decisivo para o banimento do Webwise em vários países foi o da British Telecom citado no começo do artigo. A operadora estatal de banda larga da Inglaterra foi acusada de infringir as leis de privacidade da União Europeia por conduzir testes do Webwise com 18 mil clientes sem consultá-los. Quando procurada para comentar tudo isso, a Oi apenas disse: “A ferramenta da Oi tem uma proposta de valor e modelo de implementação totalmente diferente do Reino Unido”.

Informação é dinheiro. Difícil acreditar que a Oi vai abrir mão de tanta informação.

Espionar não é exclusividade da Oi

Ter um programa que rastreia as atividades do usuário para direcionar publicidade não é exclusividade da Phorm. Outros grandes sites também possuem ferramentas para analisar seus usuários para tentar vender. O Google tenta adivinhar o gosto do usuário a partir de suas buscas. Basta começar a digitar algo que o Google mesmo te direciona tentando completar sua busca. Quando a empresa lançou o AdWords e o AdSense também muito se especulou sobre privacidade. O Facebook é outro que enfrenta questionamentos sobre sua política de privacidade. Vários usuários pelo mundo saíram do Facebook por causa disso.

Mas o rastreamento da Phorm é pior. Primeiro porque quando você está sendo espionado pelo Phorm tudo o que você faz é rastreado, diferente de outros sites que avaliam seu perfil mas não guarda toda sua movimentação digital. Em segundo lugar, os sites de busca e redes sociais dependem de publicidade para se manterem. São serviços gratuitos que precisam dos lucros da publicidade, então é mais ou menos válido tentar traçar um perfil de seus usuários. Só não pode invadir sua vida online. No caso da Oi, ela é uma empresa de telefonia e provedora de internet, ou seja, já recebe muito dinheiro dos clientes que contratam seus serviços. Usar um spyware como o Phorm só pode significar duas coisas: abuso de privacidade e ganância desmedida.

Existe até uma ONG que atua contra o Phorm. O grupo se autodenomina AntiPhorm, e diz agir em defesa dos direitos civis na internet. A AntiPhorm criou um programa para bloquear o rastreador, o Dephormation, que funciona simulando atividade na internet do computador do usuário. Assim, os dados que a Phorm tenta rastrear ficam poluídos com informação falsa e perdem valor.

Já o navegador de internet Firefox disponibilizou uma extensão chamada Firephorm, que impede a Phorm de registrar os sites que o usuário visitou. Outra possibilidade de acabar de vez com as ações da Phorm é se as próprias empresas que anunciam se recusarem a adotar o programa, primeiro em sinal de respeito a privacidade de seus clientes e segundo por desconfiarem que esses dados podem ser usados por concorrentes. “Alguns podem avaliar que explorá-los configura espionagem industrial”, disse Jim Killock, da Open Rights Group. Foi exatamente essa a postura da Amazon quando barrou o Phorm em seu site.

Enquanto o Brasil não cria regras mais duras de regulação da internet, o jeito é tentar se proteger agindo por conta própria. Para quem assina o Velox, o melhor a fazer é aprender a bloquear o Phorm.

Como desativar o Navegador Oi e como bloquear o Phorm

 

  • Aparecerá uma mensagem O SERVIÇO NÃO ESTÁ ATIVO PARA TODOS OS COMPUTADORES DA SUA CASA.

Se mesmo assim você ainda desconfiar do Navegador Oi, existem outros métodos seguros para desativar o Navegador Oi e o Phorm.

  • Se você usa o navegador Firefox, basta baixar e instalar a extensão Dephormation e navegar tranquilo.
  • Caso você possua um site ou blog basta adicionar ao cabeçalho de seu site, em todas as páginas, o seguinte código:

<?php
setcookie("webwise-uid", "Dephormation Test Cookie");
require_once("tripwire.php");

?>
<html>
<head>
<script language="javascript" src="tripwire.js"></script>
</head>
<body>
… insira aqui todo o código de sua página …
</body>
</html>

  • Baixe os arquivos tripwire.php e tripwire.js diretamente do site dos autores. O código acima altera o cookie utilizado pelo programa da Phorm para rastrear os usuários, tornando mais difícil para o Phorm utilizá-lo após passar pelo seu site.