O que são os Black Blocs nas Manifestações

As manifestações que eclodiram em cidades como Rio de Janeiro e São Paulo, em junho de 2013, trouxeram à tona um tipo de manifestante com o qual a sociedade brasileira não estava acostumada: os Black Blocs.

Eles participam das manifestações mascarados e vestidos de preto, enfrentam a polícia, atacam prédios públicos e de grandes corporações (os bancos têm sido o alvo preferido), destroem a fachada de lojas e o mobiliário urbano e levam medo as pessoas por espalharem a violência, quando a maioria tem a intenção de fazer uma passeata tranquila e sem incidentes.

Mas, quem são os Black Blocs? De onde eles vieram? Como surgiram? Eles apareceram pela primeira vez na Alemanha, no começo dos anos 1980 e parecem se inspirar em grupos antiglobalização surgidos nesta época na Europa. Na década seguinte se espalharam pelos Estados Unidos.

Agora, no século 21, o grupo chegou a países como México, Egito e Brasil. No Egito, por exemplo, país que vive uma incerteza muito grande quanto ao seu futuro político, desde a destituição de Hosni Mubarak, que foi obrigado a deixar a presidência do país após 30 anos, devido a uma grande mobilização popular em 2011, a atuação do grupo é extremamente forte. Eles estão em todas as manifestações contra o atual governo do Egito, e já foram acusados de realizar ações terroristas.

No Brasil, depois que começaram os protestos por causa do aumento das passagens de ônibus, os Black Blocs estão presentes em todas as manifestações e protestos que continuam acontecendo em várias cidades brasileiras. No entanto, segundo análises feitas sobre o comportamento dos Black Blocs, no início sua ação era mais próxima do modelo alemão de protestos. Ou seja, a violência era um objetivo secundário, já que durante o protesto do Movimento Passe Livre, em São Paulo, o grupo tinha como principal ação retardar a chegada da Polícia Militar, permitindo o avanço da manifestação.

Só que agora tudo mudou e os Black Blocs se aproximam do modelo de protesto que provocou a destruição de símbolos do capitalismo durante a realização da conferência da Organização Mundial do Comércio, em Seattle, nos Estados Unidos, em 1999. Junto com outros manifestantes, os Black Blocs participaram de uma das maiores manifestações da história do país. Em meio aos protestos antiglobalização, os Black Blocs depredaram grandes corporações, como bancos de investimento e multinacionais. Aliás, foi por causa da violência implantada que o grupo chamou a atenção da mídia pela primeira vez.

Esse atual modelo de protesto dos Black Blocs, que se distancia da concepção alemã, é o que se vê atualmente nas principais manifestações espalhadas pelo mundo. É o modelo que está presente nas manifetações ocorridas em Londres, no Egito, na Turquia, e agora, no Brasil. 

Black Bloc vs Police

Como agem os Black Blocs

Os Black Blocs têm princípio anarquista, ou seja, adotam uma filosofia política que tem como principal característica não se submeter às leis e ao Estado (pregam a desobediência civil), nem a instituições consideradas opressoras (daí o fato do enfrentamento com a polícia). Em seu modo de pensar também não há espaço para a propriedade privada (daí o ataque a bancos, multinacionais, grandes conglomerados).

Os Black Bocs não são um grupo organizado e não há liderança, nem hierarquia. Eles são uma tática de ação que atuam em manifestações e outros tipos de eventos, e que se reúnem para participar de determinadas ondas de protestos. Por ser uma estratégia, pode haver várias aglomerações de Black Blocs em um mesmo protesto, porém, apesar de eles terem os mesmos preceitos, os Black Blocs podem utilizar táticas diferentes de atuação.

A essência do grupo é o movimento anticapitalismo. Suas principais ações são a destruição de propriedades privadas e os confrontos com a polícia. Afinal, segundo eles, o objetivo é chamar a atenção da sociedade para a opressão feita pelo Estado e contra a atuação de corporações multinacionais que apoiam governos ocidentais. (daí o ataque a símbolos capitalistas).

A marca registrada do grupo, ou os seus símbolos, são as máscaras, camisas ou lenços cobrindo o rosto e suas roupas pretas. A forma como se apresentam tem um propósito: dificultar ou impedir qualquer tipo de identificação pelas autoridades. Mas, também é uma forma de evitar que alguém do grupo se sobressaia, se torne carismático, ganhe força e comece a ser visto como um líder. Afinal, o objetivo dos Black Bocs é ser um bloco uniforme, por isso sem líderes e hierarquia.

Sua tática nas manifestações é se posicionar na frente, por trás ou ao redor dos protestos. Eles também se colocam entre os manifestantes e a polícia, com o objetivo de evitar que os protestos sejam dissipados e os participantes, presos. Como não aceitam ordens, os Black Blocs provocam, incitam, resistem à prisão, fazem barricadas e não obedecem à polícia quando ela tentar fazer o grupo se dispersar e ir embora.

No Brasil, os Black Blocs se comunicam pelas redes sociais. Eles elogiam atos de violência, como os que ocorrem no Egito, publicam fotos de protestos e ações da polícia e até divulgam como devem proceder nas manifestações. Segundo eles, a violência não é gratuita, pois eles apenas reagem à violência praticada diariamente: "o que eles (Estado, polícia) fazem conosco todos os dias é uma violência, a desobediência violenta é uma reação a isso". Os Black Blocs não veem a violência como um crime e, sim, como uma arma política

Os black blocs

Black Blocs dividem opiniões

No Brasil, a infiltração dos Black Blocs nas manifestações que surgem em várias cidades do país divide as opiniões. Há quem apoie a atuação dos mascarados, quem seja solidário a eles, e entenda os seus motivos (as pessoas dizem que não concordam com a violência, porém entendem), mas há também quem seja contra qualquer tipo de violência, principalmente depois de constatar o rastro de destruição que eles deixam por onde passam.

De um modo geral, os atos de vandalismo praticados pelos Black Blocs não são bem vistos pela sociedade. E muitas vezes eles são chamados de vândalos, baderneiros, criminosos, marginais e delinquentes, que vão para as manifestações somente para provocar confusão e praticar a violência. Afinal, eles atiram pedras nos policiais, lançam rojões, atiram coquetéis molotov. No dia seguinte após mais um confronto com a polícia (normalmente no final da tarde e durante a noite), há sempre pessoas condenando a violência e o rastro de destruição que deixam pelo caminho. São pontos de ônibus destruídos, placas de sinalização arrancadas, lixeiras destruídas, pichações, vidros estilhaçados. Até carros já foram incendiados.

Para uma sociedade como a brasileira que se orgulha de ser pacífica, a atuação dos Black Blocs é vista com preocupação. Afinal, manifestações pacíficas são aprovadas pela população, mas quando existe violência, a sociedade se mostra contrária a esse tipo de comportamento. Manipulação da mídia ou realmente uma opinião coletiva?

O fato é que os Black Blocs também acreditam em seus valores, que é levar a ação às manifestações na forma de seus atos contra os mecanismos opressores, como grandes corporações e a polícia. Eles formam a linha de frente, abrindo caminho para os demais manifestantes e cobrando mais energicamente do governo e ordem estabelecidos.

Nas palavras do movimento:

"Porém, muito mais importante (os black blocs) se destinam a ser um teatro. Como uma ilustração dramatizada de que mesmo em face de um estado policial esmagador as pessoas ainda têm o poder e que os policiais e os bancos não são tão poderosos como eles tentam nos convencer. E o poder realmente está ao nosso alcance para contra-atacar caso se voltem contra nós. E desafiar a autoridade e subverter "a lei e a ordem" não significa o abandono da ética, da humanidade, ou do cuidado com seu companheiro. Não existe violência contra coisas. Existe contra pessoas, e isso o governo opressor e a polícia praticam todos os dias."

Black Bloc Brasil

Muitos acreditam que os Black Blocs vieram para ficar, já que a tática de ação se estabeleceu. Porém, a pergunta que se faz é: até onde essa ação pode nos levar?

Assista abaixo os dois lados da moeda e tire suas conclusões. Primeiro, um vídeo do que a mídia brasileira anda falando a respeito dos Black Blocs, depois um vídeo introdutório do próprio movimento explicando suas ações e outro estilo documentário com os Black Blocs brasileiros. As conclusões, você que tira.