O que é folclore?

Muito provavelmente, quando criança, você ouviu histórias e lendas sobre o saci-pererê, a cuca, o lobisomem, a mula-sem-cabeça, o menino do pastoreio, o boitatá e o boto cor-de rosa. Pois todos esses personagens fazem parte do folclore brasileiro. Mas, o que é o folclore?

 

A melhor denominação para folclore é a que define-o como um conjunto de tradições e manifestações populares que ajudam a formar a identidade de um povo, de uma nação. Não é à toa que a palavra tem origem no inglês "folklore", que significa sabedoria popular. Assim sendo, é através da oralidade que são narradas as lendas e os mitos do folclore brasileiro. Também são passadas de geração em geração as tradições relacionadas às brincadeiras, músicas, danças e festas folclóricas.

O folclore é tão importante para a cultura brasileira que o Congresso Nacional oficializou, em 1965, o dia 22 de agosto como o Dia do Folclore, e que tem como objetivo valorizar as histórias e personagens do folclore brasileiro. Além da data comemorativa, o folclore é protegido por lei, e está previsto na Constituição Federal de 1988, nos artigos 215 e 216, que tratam da proteção do patrimônio cultural brasileiro: “os bens materiais e imateriais, tomados individualmente ou em conjunto, portadores de referência à identidade, à ação, à memória dos diferentes grupos formadores da sociedade brasileira”. 

O folclore brasileiro é extremamente rico, tanto com relação às músicas e danças do folclore quanto às lendas e mitos, assim como às festas folclóricas.

A seguir você conhecerá algumas das principais lendas e mitos do folclore brasileiro, e das festas que tradicionalmente são realizadas todos os anos pelo Brasil. 

LENDAS E MITOS FOLCLÓRICOS

Saci-Pererê

O saci-pererê é um menino negro que tem apenas uma perna. Ele teria surgido entre os povos indígenas da região sul do Brasil no final do século XVIII, sendo representado por um menino indígena de cor morena e com um rabo. Quando o mito do saci migrou para o norte do país, ele sofreu influência da cultura africana. A partir de então, ele passou a ser representado por um menino negro, sem uma perna e com cachimbo e gorro vermelho (que lhe dá poderes mágicos).

Divertido e brincalhão, o saci vive aprontando travessuras. Ele também é um profundo conhecedor de ervas da floresta. Seu deslocamento é feito dentro de redemoinhos de vento e, segundo o mito, para capturá-lo é necessário jogar uma peneira sobre ele. Depois, o gorro é tirado e o saci é preso dentro de uma garrafa. Como não tem mais poderes, o saci irá obedecer ao seu “proprietário” enquanto estiver preso. 

O escritor brasileiro Monteiro Lobato foi quem primeiro retratou o personagem nas histórias do Sítio do Picapau Amarelo. Depois que as histórias do Sítio chegaram à televisão, o saci se tornou ainda mais conhecido entre os brasileiros.

Para diminuir a importância do Halloween e a influência da cultura norte-americana no Brasil, e valorizar a cultura nacional, foi criado o Dia do Saci, comemorado em 31 de outubro.

Cuca
Uma velha brava, com cabeça de jacaré, cabelos compridos e desgranhados, e que possui uma voz assustadora. Essa é a Cuca. Segundo a lenda, a Cuca assusta e pega as crianças que não obedecem seus pais. 

A lenda teria surgido na Espanha e Portugal, e chegou ao Brasil através dos portugueses. A popularidade da Cuca se deu com as histórias do Sítio do Picapau Amarelo, do escritor brasileiro Monteiro Lobato, e principalmente com a série de TV de mesmo nome exibida no final dos anos 79 e começo dos 80.

Na TV, a Cuca era representada por um jacaré bípede com cabelo amarelo e uma voz horripilante. Malvada, morava numa caverna e adorava preparar poções mágicas. 

Mula-sem-cabeça
Segundo a lenda, que surgiu no interior do Brasil, a mula-sem-cabeça solta fogo pelo pescoço, enquanto corre pelas matas e florestas, assustando pessoas e animais. Há algumas versões para a lenda, porém a mais famosa conta que uma mulher teve um romance com um padre. Como castigo pelo pecado, ela é transformada num animal quadrúpede que galopa e salta sem parar, enquanto solta fogo pelo pescoço. Isso acontece em todas as noites de quinta para sexta-feira.

Curupira
Protetor das matas brasileiras, o curupira é representado por um anão de cabelos avermelhados (cor de fogo) e com os pés virados para trás. Ele protege as árvores, plantas e animais das florestas, e luta contra as pessoas que destroem as matas de forma predatória.

Para assustar os inimigos da floresta ele emite sons e assovios agudos. O curupira também gosta de pregar peças em quem entra na floresta. E por meio de ilusões e encantamentos, ele deixa o visitante atordoado e perdido, sem saber o caminho de volta. Depois, ele se diverte observando e seguindo os passos do visitante perdido. E se alguém desaparece na mata, pode acreditar: é obra do curupira.

Além de ser muito rápido, o curupira não é facilmente localizado pelos caçadores, já que seus pés virados para trás deixam rastros falsos pelas matas, e enganam seus perseguidores.

Negrinho do Pastoreio 
Surgida no Rio Grande do Sul, a lenda do Negrinho do Pastoreio é de origem africana. Ela surgiu no século XIX, quando havia escravidão no Brasil.

Diz a lenda que um menino negro escravo, de quatorze anos, cuidava do pasto e dos cavalos de um rico fazendeiro. Num determinado dia, ao voltar do trabalho, o menino foi acusado pelo patrão de ter perdido um dos cavalos. Com raiva, o fazendeiro mandou açoitar o menino, e depois ordenou que ele recuperasse o cavalo. O menino voltou para a fazenda sem o cavalo e novamente foi castigado. Desta vez, ele foi colocado pelado dentro de um formigueiro. Quando o fazendeiro foi ver como o menino estava, eis a surpresa: o garoto estava livre, sem nenhum ferimento e montado no cavalo que havia sumido.

Foi assim que nasceu a lenda do negrinho do pastoreio que foi salvo por um milagre e foi transformado num anjo.

Lobisomem
Este mito aparece em várias regiões do mundo, mas teria sua origem na Europa do século XVI. Segundo a lenda, um homem foi atacado e mordido por um lobo numa noite de Lua cheia. Agora, em todas as noites de Lua cheia, o homem se transforma em lobisomem, e ataca quem encontra pela frente. Se ele morder outra pessoa, ela também será atingida pelo feitiço. O lobisomem volta a forma humana somente com o raiar do Sol. Ele só morre se for atingido por um tiro de bala de prata em seu coração.

Boitatá
O Boitatá seria uma grande cobra de fogo que protege os animais, as matas e as florestas. Ele persegue e mata aqueles que desrespeitam a natureza. O mito teria origem indígena e seria um dos primeiros do folclore brasileiro. Os primeiros relatos sobre o boitatá foram encontrados em cartas do padre jesuíta José de Anchieta, em 1560.

Caipora 
Montado em um porco selvagem, o caipora anda nu pela floresta e tem como missão proteger os animais. Ele luta contra os caçadores que caçam além das necessidades. Profundo conhecedor da vida na floresta, o caipora monta armadilhas para os caçadores, destrói suas armas e bate nos cães de caça. Para assustar os caçadores, ele reproduz sons da floresta, modifica os caminhos e elimina os rastros para que os caçadores se percam na floresta.

Para escapar da ação do caipora, é aconselhável lhe oferecer fumo de corda e outros presentes, que devem ser deixados próximos ao tronco de uma árvore, de preferência numa quinta-feira.

Boto
A lenda do boto cor-de-rosa tem origem na região amazônica. E segundo contam o boto se transforma em um homem jovem, bonito e charmoso que encanta e seduz as mulheres em bailes e festas. Depois de conquistá-las, leva-as para a beira de um rio e as engravida. E antes de o sol raiar, ele mergulha nas águas do rio e se transforma novamente em um boto.

Ainda hoje, principalmente na região amazônica, quando não se sabe quem é o pai da criança, costuma-se dizer que ela é filha do boto. Uma gravidez fora do casamento também é justificada devido à lenda do boto.

Matinta Pereira 
Lenda da região amazônica, a Matinta Pereira, ou Mati-Taperê, é uma mulher idosa e assustadora que veste uma roupa escura e velha. Durante as noites e madrugadas, ela anda pelas ruas assoviando de forma estridente, amedrontando as pessoas.

Para não ser perturbado pela Matinta Pereira, deve-se oferecer, no dia seguinte, algum tipo de alimento e tabaco (fumo). Ela então passaria a não mais assustar as pessoas da casa. Mas, senão receber nenhum agrado, ela continuará assoviando todas as noites nas proximidades da casa.

Iara
De origem indígena, Iara ou "mãe das águas" é uma sereia (corpo de mulher da cintura para cima e de peixe da cintura para baixo) morena de cabelos negros e olhos castanhos. Ela vive nos rios do norte do país.

Os homens não resistem ao belo e irresistível canto de Iara, e seguem-na até o fundo dos rios, de onde nunca mais voltam. Quem consegue voltar acaba louco em função dos encantamentos da sereia. Somente um ritual realizado por um pajé (chefe religioso indígena, curandeiro) pode livrar o homem do feitiço.

Segundo os índios da região amazônica, Iara era uma índia guerreira, que foi salva por peixes em uma noite de Lua cheia, e transformada em sereia depois de ser jogada no rio Solimões. Ela foi punida por ter matado os irmãos antes que eles a matassem. Os irmãos de Iara tinham ciúmes dela, pois o pai a elogiava muito, e armaram um plano para matar Iara.

Vitória-Régia 
De origem indígena tupi-guarani e muito popular na Amazônia, a lenda da Vitória-Régia conta que a Lua se punha atrás das montanhas e ficava namorando belas moças indígenas. Quando a Lua se escondia, ela levava consigo uma linda índia que era transformada em estrela.

A índia Naiá sonhava em ser levada pela Lua e transformadada numa estrela. Numa noite iluminada, Naiá viu o reflexo da Lua no lago. Ela pensou que, finalmente, a Lua iria levá-la, por isso atirou-se nas águas e desapareceu. Impressionada com o gesto da índia, a Lua transformou Naiá numa linda planta aquática: a vitória-régia. Ainda segundo a lenda indígena, é por isso que a planta apresenta lindas flores que abrem somente à noite.

Corpo-seco
No interior dos estados de São Paulo, Minas Gerais e região Centro-Oeste diz a lenda que corpo-seco foi um homem muito malvado que vivia prejudicando e maltratando as pessoas, inclusive sua mãe. Quando morreu, ele foi rejeitado por Deus e pelo diabo. E até mesmo a terra, onde foi enterrado, o expulsou. Agora ele vive como uma assombração, assustando as pessoas nas estradas.

Mãe-de-ouro
Popular no interior das regiões sudeste e nordeste do Brasil, ela é uma linda mulher loira, com cabelo comprido dourado que reflete a luz do Sol. Está lindamente trajada com um longo vestido de seda branco.

Há algumas versões sobre a Mãe-de-ouro. Uma delas diz que ela é representada por uma bola de fogo que se transforma numa linda mulher, e que devido a sua capacidade de voar pelos ares, pode indicar onde se encontram as jazidas de ouro que devem ser exploradas. Já outra lenda conta que ela defende mulheres que são maltratadas pelos maridos, e que atrai os homens casados para sua caverna, e os mantém lá, fazendo com que as mulheres se libertem dos maridos opressores.

Pisadeira
Popular no interior dos estados de Minas Gerais e São Paulo, a Pisadeira é uma velha de chinelos com aparência assustadora que surge nas madrugadas para pisar na barriga das pessoas, provocando a falta de ar. Ela ataca as pessoas que vão dormir de estômago muito cheio. 

FESTAS FOLCLÓRICAS

Carnaval 
Apesar de ser considerada uma festa profana, o Carnaval é uma das mais lembradas quando se fala em festas populares no Brasil. Apesar de ter origem europeia e ter sofrido influência da música africana, hoje pode-se afirmar que o Carnaval é uma festa com características bem brasileiras, principalmente quando se refere aos desfiles das escolas de samba, no Rio de Janeiro e em São Paulo. O carnaval de rua, o desfile dos trios elétricos e as festas realizadas em salões também ajudam a manter o Carnaval como uma das festas mais populares no país.

Festa Junina 
A Festa Junina é uma festa católica, em homenagem a São João, Santo Antônio e São Pedro. É uma das festas mais tradicionais e concorridas em todo o país, principalmente na região nordeste do Brasil, e acontece sempre no mês de junho.

Tem muita comida típica, dança em volta da fogueira, quadrilha e até simulação de casamento na roça, com direito a padre, tentativa de fuga do noivo e perseguição dos familiares da noiva, que vão atrás do noivo fujão e o obrigam a casar. O forró é o ritmo que embala a festa junina, mas também há espaço para a moda de viola e para os sanfoneiros que dão um show de talento.

Folia dos Reis 
De origem portuguesa, a festa tem caráter religioso, e acontece entre o Natal e o dia 6 de janeiro. A festa caracteriza-se pelos cânticos bíblicos entoados por grupos de cantadores e músicos. Eles relembram a viagem dos três Reis Magos (Gaspar, Belchior e Baltazar) à Belém para dar boas-vindas ao Menino Jesus. Os cânticos são entoados enquanto o cortejo percorre as ruas de pequenas cidades brasileiras, pois a Folia dos Reis está mais presente em cidades do interior do país.

Pela tradição, de manhãzinha, o Alferes da Folia, chefe dos foliões e os palhaços do Reisado com seus instrumentos, vão até às casas dos fiéis. Lá o Alferes toma café e recolhe dinheiro para a Folia de Reis. Como agradecimento, ele oferece uma bandeira colorida, enfeitada com fitas e santinhos. Do lado de fora, ficam os palhaços que têm seus rostos obertos por máscaras. Eles representam os soldados do rei Herodes, de Jerusalém. Os palhaços recitam versos e dançam ao som do violão, do pandeiro e do cavaquinho.

No último dia da festa, ou seja, no Dia de Reis, 6 de janeiro, o dinheiro arrecadado é gasto em comes e bebes para todos.

Festa do Divino 
Pela tradição, a Festa do Divino é realizada sete semanas depois do Domingo de Páscoa, dia de Pentecostes. Na ocasião, a Igreja Católica comemora a descida do Espírito Santo sobre os apóstolos. Durante os festejos são realizadas procissões, novenas, quermesses e leilões. Também não podem faltar apresentações de grupos de danças folclóricas como as congadas, catiras e moçambiques, música e shows com fogos de artifício.

Na Festa do Divino, as casas dos fiéis são visitadas por grupos de cantadores que pedem donativos. Na procissão seguem personagens que simbolizam os membros da Corte, o Imperador e sua esposa, os apóstolos e a Virgem Maria. O estandarte do Divino é levado pelas crianças, que formam a Roda dos Anjos. E para finalizar, seguem os bonecos gigantes (João Paulino, Maria Angu e a velha Miota).

Cavalhada 
A cavalhada em Goiás é uma das festas mais populares do país, e que também acontece em estados da região sudeste, como São Paulo. A cavalhada lembra as batalhas medievais entre cristãos e muçulmanos. Coreografados, os 12 cavaleiros vestidos de azul, representando os cristãos, e os 12 vestidos de vermelho, se enfrentam como se estivessem num campo de batalha. Os cristões saem vencedores e assistem à conversão dos mouros através do batizado.

Os jesuítas trouxeram a cavalhada para o Brasil. O objetivo era catequizar os índios e os escravos africanos, mostrando o poder da fé cristã.

Bumba-meu-Boi
Essa manifestação do folclore brasileiro é centrada na figura de um boi, representado por uma cabeça de boi empalhada, ou modelada, e de corpo feito de papel ou de pano colorido e com muitos enfeites.

Segundo a história, Pai Chico trabalha para um rico fazendeiro. Para atender ao desejo da mulher Catarina, que está grávida, ele rouba e mata um boi, já que a mulher tem forte vontade de comer a língua do boi. Quando o fazendeiro descobre o roubo, ele manda procurar Pai Chico e encontrar o adorado boi. Como ele está morto, o fazendeiro chama o pajé para ressuscitá-lo. Ao descobrir o real motivo do roubo, o fazendeiro perdoa Pai Chico e celebra a saúde do boi com uma grande festividade.

Durante a festa do Bumba-meu-boi, um homem se veste de boi e comanda as coreografias. Mas, o grande momento é quando o boi ressuscita e sai dançando no meio do povo. A festa tem elementos culturais africanos, portugueses e indígenas e ocorre entre o mês de novembro até 6 de janeiro.

O Bumba-meu-Boi é uma festa tradicional no Maranhão e em Parintins, no Amazonas.