Estamos ficando burros com tanta tecnologia?

"Somos uma nação movida a gadgets, mas esses gadgets nos fazem mais burros e não mais inteligentes". Este sentimento pode parecer óbvio para o público do século 21, mas na verdade foi escrito no jornal The Ledger em 1977 por um escritor confuso com a transformação provocada por inovações, incluindo fitas cassete e câmeras instantâneas.

 



 

Inovações nos ramos de computação e comunicações têm transformado a forma como trabalhamos, como nos relacionamos uns com os outros e como vivemos. Uma pesquisa recente mostrou, no entanto, que a tecnologia pode também mudar a forma como pensamos. Como certas habilidades tornam-se desnecessárias ou obsoletas graças à tecnologia, nós nos ajustamos e nos adaptamos. Nossos cérebros, no entanto, não são tão flexíveis. Veja como tantas tecnologias estão nos deixando mais burros.

  • GPS

GPS

O aumento da dependência de dispositivos GPS pode afetar o desenvolvimento em nossos cérebros. Três estudos da McGill University, em 2010, sugeriram que a forma como uma pessoa navega pode ter implicações para o funcionamento do cérebro à medida que ela envelhece.

 

Para encontrar o caminhos e andar por aí, os seres humanos usam duas estratégias, conforme relatado pela NBC News: memória de navegação espacial, em que usamos mapas desenvolvidos em nossos cérebros usando dicas visuais, e resposta a estímulos, que é essencialmente seguir instruções que ou são memorizados ou vão se apresentando no caminho, como em placas por exemplo.

O hipocampo é a parte do cérebro que lida com a memória e a orientação espacial e está posicionada entre as partes do cérebro que são afetadas primeiro pela doença de Alzheimer. O hipocampo diminui com a idade. Aqueles que usam ativamente a sua memória espacial terão maior volume de massa cinzenta no cérebro. Motoristas de táxi de Londres, por exemplo, têm um hipocampo maior do que outras pessoas, de acordo com um estudo de imagens cerebrais (tomografias) publicado em 2000.

Embora o estudo não prove de fato a relação, exercitar o seu hipocampo como sugerem as pesquisas desligando o GPS de vez em quando pode ser uma caminho inteligente.

  • Calculadora

Calculadora

As calculadoras, que um dia já foram consideradas uma forma de trapaça, há décadas são usadas em aulas de matemática avançada nas faculdades. Só que ao usar a calculadora o aluno corta caminho e acaba não aprendendo os princípios mais avançados da matemática. O aluno aprende a usar os procedimentos na calculadora, mas não os princípios matemáticos em si segundo pesquisa publicada em 2012 no British Journal of Educational Technology. Porém, um estudo de 1990 diz que ferramenta reforça a capacidade dos alunos para aprender o básico.

Então a calculadora serve para o básico, não para o avançado. Mas é inegável que fazer contas básicas de cabeça é um bom exercício para o nosso cérebro. Então, a calculadora de qualquer maneira também nos deixa mais burros.

  • Internet

Internet

Sim, nós adoramos a Internet e fica difícil imaginar o mundo e nosso dia-a-dia sem ela.

A Internet coloca em nossas mãos o maior arquivo único de informação já reunido na história humana. Mas ter esse volume de informação disponível tem afetado o nosso foco e nos leva a ser cada vez mais pensadores desfocados e superficiais, como Nicholas Carr explica sucintamente na Wired Magazine: "Nós pedimos para a Internet continuar nos interromper de formas cada vez mais variadas. Nós aceitamos de bom grado a perda da concentração e foco, a fragmentação da nossa atenção, e o rareamento de nossos pensamentos em troca da quantidade – ou distração – de informações que recebemos."

Essa distração constante muda a forma como pensamos, tornando a informação pouco mais do que uma memória de curto prazo. Elas são cada vez menores, mais vagas e em muitos casos vazia. Em vez de reter novas informações, o nosso cérebro processa essa informação instantânea e logo passa para o próximo pedacinho de informação.

Mas nós fazemos a internet, pelo menos por enquanto. Então é dever de cada internauta exigir informações mais relevantes, com maior profundidade e pesquisa. O jornalismo quase não existe mais, as notícias se propagam a partir de uma fonte ou outra e são as mesmas em milhares de sites. O jornalista que sai à caça de matérias originais, relevantes e informativas é um artigo cada vez mais raro. Temos que ter muito cuidado com o futuro da internet ou nos tornaremos uma raça de imbecis.

  • Smartphones

Smartphones

Smartphones combinam todas as distrações da Internet com centenas de outras distrações. Existem aplicativos, jogos, e-mails, mensagens de texto e telefonemas. Ah, claro, não vamos nos esquecer do uso primordial de um celular que era servir de telefone móvel. Hoje ligar de um smartphone é apenas uma das coisas que o usuário pode fazer.

Como esses pequenos dispositivos se tornaram onipresentes e contamos com eles cada vez mais para gerir as nossas vidas, que partes do nosso cérebro ficarão sem uso? Velocidade de processamento e memória, que já diminuem naturalmente com a idade. Já que estamos essencialmente terceirizando esses trabalhos do nosso nosso cérebro para a tecnologia atual, que efeitos isso terá daqui a décadas em nossos cérebros? Por enquanto, os pesquisadores podem apenas especular. Com celulares e suas agendas de contato já não precisávamos lembrar mais dos telefones de nossos amigos e familiares. Agora com os smartphones não precisamos nos lembrar de mais nada. Está tudo guardado na memória deles ao invés da nossa.

  • Corretor automático

Corretor automático

Auto correção e verificação ortográfica podem parecer boas ideias, especialmente se não estamos usando nosso cérebro na sua capacidade máxima graças à tecnologia. Mas a correção automática não está nos ajudando. Foi comprovado que na verdade ela afeta a capacidade dos adultos de soletrar ou escrever corretamente palavras de forma consistente, de acordo com um estudo de 2000 reportado na BBC News. A vantagem, se é que podemos chamá-la assim, é que a mesma pesquisa descobriu que 96 por cento dos adultos afirmaram que a grafia correta era importante. Devemos perguntar a mesma coisa para os adolescentes.

Para voltar a treinar o seu cérebro o melhor a fazer é desligar o corretor automático e aprender a grafia correta das palavras. Como sempre foi.

  • Multitasking – fazer várias tarefas ao mesmo tempo

Com tantos smartphones, tablets, laptops e outros dispositivos portáteis ao redor, as pessoas que se auto-proclamam multitasking (multitarefa) dizem que funcionam melhor. Mas pesquisas parecem sugerir o contrário.

Um estudo publicado em 2010 pelo Instituto de Psiquiatria da Universidade de Londres descobriu que pessoas multitarefa têm maior diminuição do QI do que pessoas que fimam cannabis sativa. Mil e cem trabalhadores de uma empresa britânica participaram da pesquisa, que também descobriu que os funcionários privados de sono eram mais inteligentes do que os funcionários que eram "multitarefa".

A multitarefa reduziu temporariamente o QI dos participantes do estudo em 10 pontos. As mulheres, no entanto, se revelaram mais capazes de serem multitarefa do que os homens. Mesmo assim a perda de pontos de QI foi em média três vezes maior do que nas mulheres que utilizaram cannabis.

Fazer muitas tarefas ao mesmo tempo não significa fazre o seu cérebro trabalhar mais. Aparentemente ter a atenção deslocada constantemente faz mal para o cérebro. O melhor é pegar uma tarefa e se concentrar nela até terminá-la. Ter atenção em apenas uma coisa é que faz o cérebro trabalhar mais e ter melhor desempenho.