Dicas para quando estiver perdido

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Em 1996, um um helicóptero de resgate que sobrevoava o Death Valley (Vale da Morte) na Califórnia encontrou uma minivan perto de Anvil Canyon. O fato foi estranho por vários motivos: não havia estrada que levasse até o local, e não havia como chegar até a área sem um veículo com tração nas 4 rodas.

 

Depois de investigar o veículo, os policiais determinaram que quatro turistas alemães – um homem, uma mulher e seus dois filhos, com idades entre 4 e 11 – foram os últimos a alugar a minivan. Mas não havia nenhum vestígio da família.

Seus restos mortais não foram encontrados por cerca de 15 anos, até que Tom Mahood, um físico que virou aventureiro, refez seus passos. Como ele relata em seu site, uma série de erros, como interpretar mal a inclinação em uma descida de um canyon e seguir marcos em mapas confusos, provavelmente fizeram com que eles se separassem e em seguida morressem no calor escaldante do deserto.

A história revela como é fácil para as pessoas se perderem no deserto. Os seres humanos se perdem em parte porque nós não prestamos atenção e porque perdemos antigas formas de ler o ambiente para navegar. Mas as habilidades dos seres humanos em encontrar caminhos sempre foram menos precisas que as de outros animais.

Enquanto a habilidade inata de navegação é diferente de pessoa para pessoa, "quase todo mundo pode melhorar", disse Daniel Montello, geógrafo e psicólogo da Universidade da Califórnia em Santa Barbara.

Ferramentas antigas

Historicamente, não se perder era uma questão de vida ou morte. Um caminho errado poderia levar para a cova de uma hiena ou mesmo a morrer de sede. Como resultado, todas as culturas indígenas navegavam acompanhando o sol ou as posições das estrelas no céu em relação à estrela fixa Polaris, disse Tristan Gooley, autor de "The Navigator Natural" (The Experiment, 2012) e dono da naturalnavigator.com.

Homem pré-histórico

Essas pistas direcionais "são tão boas ou melhores do que uma bússola em muitas situações," segundo Gooley. Por exemplo, os marinheiros da polinésia encontram a direção usando as ondas do oceano, o aumento natural e diminuição da água causada quando uma enorme tempestade se forma geram ondas nas profundezas do mar. Como esse efeito pode durar dias, ele pode ser usado de forma confiável para afinar a direção. Os polinésios podem rastrear até oito efeitos diferentes das ondas de uma vez.

Tanto a terra quanto o mar mantêm vestígios de pistas direcionais, tanto de longa quanto de curta duração. Por exemplo, a grama pode acenar na direção dos ventos em um determinado dia, mas a árvore pode inclinar-se na direção dos ventos que sopram durante longos períodos de tempo.

Use ou perca sua habilidade

O mapeamento mental do ser humano faz parte de uma região do cérebro chamada hipocampo e estudos sugerem que ela pode ser reforçada com a prática. Por exemplo, um estudo descobriu que motoristas de táxi de Londres têm o hipocampo maior e mais grosso do outras pessoas, disse Colin Ellard, um psicólogo da Universidade de Waterloo, no Canadá, e autor do livro "You Are Here" (Doubleday, 2009).

Navegar com GPS

Mas o senso de direção também pode piorar se não praticarmos. Pequenos estudos descobriram que o uso de um GPS por apenas algumas horas parece prejudicar as habilidades de navegação das pessoas a curto prazo. Muitas pessoas ficam perdidas porque simplesmente não estão prestando atenção no caminho que estão fazendo. Ao invés de ler placas ou procurar por lugares e pontos familiares, confiam totalmente no GPS e não estimulam a área do cérebro responsável pela navegação.

Sentido animal

Também é verdade que o sentido humano de direção é menos preciso do que a de muitos animais. Por exemplo, as aves migratórias podem usar bússolas magnéticas internas ou mapeamento por sonar para criar mapas mentais incrivelmente detalhados. E o senso de direção de muitos animais é instintiva e parte de sua genética.

Aves migratórias

 

Além disso, os seres humanos têm sentidos internos de direção defeituosos. Por exemplo, vários estudos descobriram que as pessoas andam em círculos quando têm os olhos vendados ou estão desorientados (em uma floresta densa e desconhecida, por exemplo). Formigas do deserto da África, por outro lado, podem marchar em linha reta por quilômetros.

Segundo Ellard, "Elas têm essa capacidade prodigiosa de saber onde estão em relação ao seu ponto de partida inicial". "Elas têm um odômetro interno muito preciso."

Mas enquanto o senso de direção dos animais é mais preciso, temos uma habilidade para encontrar o caminho muito mais flexível, Montello disse. Por exemplo, animais migratórios viajam milhares de quilômetros, mas costumam ir para locais específicos, pré-determinados. Já os seres humanos usam marcos, referências direcionais, um senso de quão longe eles já viajaram, bem como uma miríade de outras pistas para ir a muito mais lugares, muitas vezes sem conhecimento prévio.

"Nós viajamos muito mais amplamente e mais longe do que muitos outros animais", disse Montello.

Técnicas de orientação

Algumas técnicas simples podem evitar que você se perca. "Uma maneira comum de as pessoas se perdem é o fato do ambiente parecer diferente em uma direção diferente", disse Montello. Então, quando avançar em uma longa caminhada, é útil olhar para trás e tirar uma fotografia mental para visualizar a área a partir de múltiplas orientações. Preste atenção em marcos visuais e faça um bom reconhecimento dos arredores – acompanhar sua velocidade e orientação também é útil. Confira algumas dicas úteis para não se perder quando estiver fazendo longas trilhas.

  • Basta estar atento ao seu redor, especialmente quando você estiver em áreas totalmente desconhecidas. A maioria de nós usa uma variedade de pistas para ajudar a saber onde estamos. A maioria dessas pistas são visuais, embora sons e até cheiros possam ajudar. (uma carcaça podre de um animal pode fornecer um cheiro marcante para ser reconhecido no caminho de volta). A pessoa que presta atenção às árvores, rochas, montanhas, riachos, etc terá uma grande vantagem sobre o cara que simplesmente olha para a trilha na frente dele. Tente olhar para essas características de vários ângulos diferentes enquanto caminha. Tente reunir em sua mente como características diferentes se relacionam entre si e à sua rota. (É claro que estar atento ao ambiente também aumenta o prazer de estar ao ar livre, a razão pela qual a maioria de nós está lá em primeiro lugar).
  • Tente lembrar das direções que tomou e associá-las com o território ao seu redor. Por exemplo, observe não só o morro que tem uma forma estranha, mas também perceba que ele está a nordeste de você e começa no leste indo para o oeste. Tente estar ciente da direção que a trilha está indo. Observe que aquele morro está à frente de você na trilha, e fica um pouco para a direita quando a trilha vira. Uma bússola é útil para acompanhar a direção que a trilha toma. Mais uma vez você está tentando formar uma imagem mental do território e como ele é orientado. Alguns de nós são melhores nisso do que outros, mas todos podem melhorar com a prática.
  • Aprenda a ler um mapa. Tente levar um bom mapa da área que você explorará. No entanto, mesmo se você não tiver um mapa com você a experiência de saber como usar um vai ajudar na sua capacidade de construir seu próprio mapa mental do território.
  • Aprenda a reconhecer os indicadores de direção da natureza. Por exemplo, musgo nem sempre cresce no lado norte das árvores, mas geralmente cresce em um lado preferido, que varia com a localização e depende dos ventos predominantes. Esteja ciente de que esses indicadores podem mudar de um lugar para outro, assim como os ventos predominantes. Isso pode ocorrer em distâncias muito curtas se colinas afetarem o vento. (É claro que em lugares o musgo pode crescer em todos os lados das árvores. Talvez você possa olhar o lado que tenha a camada de musgo mais fina). Galhos de árvores também podem ser afetados pelos ventos predominantes.
  • De tempos em tempos olhe para trás para ver como o território vai parecer na viagem de retorno. Faça isso especialmente em todas as bifurcações ou em qualquer outro lugar onde a trilha não for muito óbvia. Todos os galhos de árvores e rochas que agora são facilmente reconhecíveis serão muito diferentes quando você estiver voltando de outra direção.
  • Aprenda a usar uma bússola razoavelmente bem. Você não precisar ficar craque, mas você deve ser capaz de saber para onde fica o norte. Isto significa também entender de declinação (a diferença entre o norte verdadeiro e a direção que a bússola está apontando). A menos que seja uma área onde a declinação seja inferior a cerca de 5 graus. Aprenda a voltar na direção que você veio usando a bússola.

  • Utilize a bússola bem antes de você se perder, inclusive na trilha e em vários pontos intermediários. Use-a para ajudar a desenvolver um sentido de qual direção você está viajando, bem como para saber em qual você está indo e em qual direção deve retornar. Não adianta saber a direção quando você está perdido, a menos que você tenha alguma idéia de qual caminho seguir. (Bem, vamos ver. Norte é pra lá, o Sul fica no lado oposto e o leste é pra cá. Mas onde está a porcaria do meu carro?) Na verdade, é uma boa idéia no início da trilha pegar o seu mapa e a bússola e orientar o mapa com o terreno. Vire o mapa para que o norte do mapa seja o norte verdadeiro e olhe ao redor. Identifique a direção que você pretende seguir e indentifique o máximo de marcos que puder. Se você não tiver um mapa, pelo menos faça isso com a bússola e preste atenção nas características do terreno, em que direção a trilha vai, etc. Certifique-se em que direção você está olhando quando você olhar para os marcos. Uma imagem mental sólida do seu ponto de partida é um bom começo para a caminhada.
  • O sol e as sombras também podem dar indicações de direção, se você souber que horas são (lembre-se de levar em conta o horário de verão). Uma excelente "bússola" natural é colocar um graveto em terreno plano e marcar o fim da sombra. Espere um pouco e marque o local onde o fim sombra se moveu. A sombra vai sempre se mover de oeste para leste. Se o sol está aparecendo isso é fácil de fazer e muito preciso, basta o terreno ser plano. Isso não será preciso se o fim da sombra estiver em um declive. Quanto mais longo o graveto e quanto mais você esperar entre as medições mais fácil será determinar a direção.
  • Estes indicadores "naturais" como o musgo, vento e sombras podem não ser tão precisos (exceto a Estrela do Norte ou leituras astronômicas tiradas com equipamento especializado). No entanto, eles podem ajudar você a ter uma idéia geral de qual direção você está indo. Se o musgo nas árvores estava à sua esquerda e de repente você percebe que está em frente a você, talvez você tenha mudado de direção sem perceber. Verifique a sua bússola ou tente descobrir o que aconteceu.
  • Nunca deposite toda a sua confiança em alguém. Cônjuges, amigos "experientes", guias, todos cometem erros. Tente saber onde você está por conta própria. Se você se sentir perdido peça ajuda ao líder para se localizar ou um tempo para orientar-se. Isto irá tornar a caminha mais segura e ajudá-lo a aprender para quando você estiver totalmente só. Se o líder não pode ou não quer ajudar, não vá com ele em outra caminhada. Bons líderes reconhecem que eles cometem erros ocasionais e fazer essa verificação de orientação é útil. Às vezes também as pessoas se separam do grupo e é melhor que tenham alguma noção de onde elas estão. A única exceção é o caso raro quando a velocidade torna-se importante para a segurança (por exemplo, você tem que sair de uma montanha, antes de uma tempestade, ou de uma trilha antes que escureça). Então, o líder pode não querer parar para ajudar e mandar as pessoas apenas seguir em frente. No entanto, ele deve responder às perguntas do grupo enquanto se movem.