Como doar o corpo para a ciência

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Você já pensou em ajudar a ciência mesmo sem ser cientista? Qualquer um pode, mas primeiro precisa passar dessa para melhor. Curioso? Vamos explicar com mais detalhes: é possível doar o seu corpo para a ciência após a morte.

 

Saiba que além de ser possível é importante, já que estudar e aprender sobre o corpo humano faz parte de disciplinas de cursos como medicina, enfermagem, psicologia, fisioterapia, nutrição e biomedicina. Ou seja, estudar a anatomia dos corpos é importante para a formação de profissionais da área de saúde. Além do mais, os corpos servem também para que cirurgiões possam experimentar e aperfeiçoar novos métodos cirúrgicos, utilizando, inclusive, instrumentos mais modernos.

 

No Brasil, para realizar suas pesquisas e estudos, as universidades brasileiras dependiam de cadáveres que não eram identificados ou não eram reclamados nos institutos médicos legais espalhados pelo país. Essa medida é respaldada pela lei 8.501/92, art. 2º, do Código Civil Brasileiro: "o cadáver não reclamado junto às autoridades públicas, no prazo de trinta dias, poderá ser destinado às escolas de medicina, para fins de ensino e de pesquisa de caráter científico".

Só que com o tempo, o número de cadáveres utilizados nas pesquisas foi diminuindo e a formação de novos profissionais foi sendo prejudicada. Por isso, na falta de corpos para dissecar, a solução é utilizar bonecos de plástico. É claro que essa opção só deve ser tomada em último caso, pois a anatomia humana tem características específicas, sendo, portanto, imprescindível o contato dos alunos com corpos humanos reais para que eles se familiarizem com as estruturas corporais, por exemplo. Estruturas essas que são completamente diferentes se o estudo for feito em modelos de animais ou em moldes artificiais.

Corpo humano

 

Para o Ministério da Educação, os laboratórios de anatomia deveriam ter ao menos um cadáver para cada grupo de 10 estudantes. Se formos levar em conta o número de estudantes que entram para a faculdade de medicina, enfermagem, psicologia, fisioterapia, nutrição e biomedicina todos os anos, mesmo não fazendo a conta, é fácil perceber que o número de corpos necessários é muito grande. Isto porque os corpos são utilizados em cursos de gradução, especialização e pós-graduação.

 

Para resolver esse problema, a Sociedade Brasileira de Anatomia e instituições de ensino resolveram difundir a cultura da doação de corpos em vida. A campanha e, sobretudo, a divulgação tem ajudado a aumentar o número de doadores de corpos para a ciência. A ideia é fazer com que a população se interesse em doar o corpo da mesma forma que ela é incentivada a doar órgãos como córnea, corações e rins.

Normalmente, é mais difícil encontrar corpos de mulheres e de crianças. Isto porque, no caso das mulheres, o número de corpos de homens não identificados é muito superior. No caso das crianças, a dificuldade em doar o corpo é devido ao trauma causado pela morte de um filho.

Quando o doador morre, a família deve comunicar a instituição de ensino a qual será destinado o corpo. Ela irá realizar o funeral normalmente, se for desejo da família. Somente depois é que o corpo doado será levado para a instituição, onde será identificado (o nome do doador ficará armazenado em um banco de dados sigiloso). Lá ele será fixado em formol e ficará conservado em glicerina até ser utilizado para estudos. 

Quem pode ser ou não doador

Assim como existem regras para ser doador de sangue, não é qualquer pessoa que pode ser doador de corpo. Confira então a seguir quem pode ser ou não o doador.

  • Qualquer pessoa com mais de 18 anos pode doar o seu corpo.
  • As doações só podem ser feitas se a pessoa tiver morrido de forma natural.
  • Pessoas que sofreram acidentes de carro, por exemplo, ou tiveram mortes violentas não podem ter seu corpo usado para fins de ensino e pesquisa.
  • Pessoas com doenças contagiosas, como HIV ou hepatite C não podem ser doadoras de corpo.
  • A família também pode decidir doar o corpo após a morte, mesmo que o familiar não tenha feito a doação em vida.

Obs.: Para que a vontade do doador de corpo seja atendida após a sua morte, a família deve estar ciente sobre a decisão e também tem que concordar com a doação para que a mesma seja efetivada. 

Procedimento para ser doador de corpo

Se as pessoas não sabiam que é possível doar o corpo para a ciência ainda em vida, também não têm conhecimento sobre como fazer a doação. Então, confira a seguir o que deve ser feito para doar o seu corpo para uma instituição com fins de ensino e pesquisa.

  • Escolha a instituição de ensino para a qual deseja doar o corpo. A maioria das universidades públicas brasileiras aceita esse tipo de doação.
  • Entre em contato com a instituição e manifeste a sua intenção. Tire também qualquer dúvida sobre a doação do corpo.
  • Se estiver realmente certo sobre a sua decisão, preencha o "Termo de Intenção de Doação".
  • Se o doador não puder preencher os dados necessários do "Termo de Intenção de Doação", um familiar responsável poderá fazê-lo. Será preciso ainda preencher um formulário com outras informações.
  • O termo deve ser assinado pelo doador e por duas testemunhas (parentes de primeiro grau, como pais, filhos, irmãos, cônjuge).
  • A firma da assinatura do doador de corpo deve ser reconhecida em cartório.
  • O termo de doação original deve ser enviado para a instituição de ensino. Uma cópia autenticada deve ficar com a família.

Obs.: Mesmo que tenha assinado o formulário de doador, a pessoa pode desistir da doação a qualquer momento. A decisão é respaldada pelo artigo 14 da Lei 010.406.2002 do Código Civil Brasileiro: "é válida, com objetivo científico ou altruístico, a disposição gratuita do próprio corpo, no todo ou em parte para depois da morte. O ato de disposição pode ser livremente revogado a qualquer tempo".

Se o doador mudar de ideia sobre a doação do corpo, é recomendável que a instituição seja informada sobre a decisão.